E se perguntassem o que vem a ser o certo, Ela olharia com a cabeça torta, como a de um cão quando parece não compreender o que se passa. Aquele olhar penetrante, de quem tem sede de entender realmente como as coisas são. Talvez ela não soubesse amar, pois mais um amor tinha ido embora. Nessa imensa individualidade, onde ninguém a podia entristecer, acabavam por nascer espinhos. Espinhos para picar quem se tentasse aproximar. O medo da mágoa não deixava que lhe tocassem, ou então havia medo porque ainda não tinham tocado fundo o suficiente para que não houvesse lugar para ele. Ela já estava habituada a isso tudo. Habituada e fria, porque depois de tantas lágrimas, ela finalmente parecia ter secado. A maquilhagem borrada em volta dos olhos, tinha sido limpa na noite anterior. Agora os seus olhos apenas denotavam cansaço e...desilusão. Estava cansada de construir sonhos, planos, fantasias. E depois da desilusão, ter de destruir uma por uma, como se nada daquilo tivesse um dia existido, só para olhar para trás e não sentir nada do que sentira antes. Era mais um fim sufocante.
Era um dia de verão, no ar passava um avião, um de tantos que todos os dias sobrevoavam o céu, o mesmo céu que ela não se fartava de olhar. Quando lhe perguntavam qual a sua cor favorita, dizia, sem pestanejar, "azul turquesa". Era feliz quando nas suas pequeninas mãos tinha a caneta, exatamente com a cor do céu. Não se coibia de a utilizar em todos os seus desenhos, pintando o céu, e um sol, amarelo e radiante. "Lá em cima vão os teus avós" - Diziam-lhe, enquanto concentrava toda a sua atenção naquele avião, que parecia tão pequeno visto de longe, imaginando como seria estar lá dentro, a sobrevoar a terra que ela pisava. Entrava no aeroporto. Era capaz de ficar horas a olhar para a avioneta que, fantasticamente, se encontrava no tecto, suspensa por fios que lhe pareciam tão frágeis. Tinha medo de se colocar debaixo dela, mas era emocionante vê-la, e admirá-la. Subia ao rooftop do aeroporto. Colocavam-na em cima do muro para conseguir ver melhor. Sentia-se ain...

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