Eu escrevia-lhe palavras bonitas porque era tudo o que eu tinha no coração. Só o via a ele, mesmo que nele a minha imagem se passeasse ao lado de muitas outras. Ele dizia que nunca ninguém iria ocupar o meu lugar, enquanto segurava uma mão que não era a minha, e eu realmente não deixava ninguém sequer aproximar-se do seu lugar. Fiz do meu corpo um templo com o seu nome, e arranquei a alma para lhe dar. Tudo o que me restou foi vazio. Restaram as minhas cinzas a voar por cima do mar que ele olhava todos os dias. Encarcerei o meu corpo na corrente que balançava ao sabor do vento. Quis fugir mas todos os lugares me levavam até ele, não conhecia outra morada, não ousava pronunciar outro nome, estava impregnado em mim. Ele dizia que me amava mas que não podíamos ficar juntos. Usava a mesma saliva que usava para a beijar. "Sou um cabrão e menti-te durante meses". "Amo-te", era tudo o que eu ouvia.
Era um dia de verão, no ar passava um avião, um de tantos que todos os dias sobrevoavam o céu, o mesmo céu que ela não se fartava de olhar. Quando lhe perguntavam qual a sua cor favorita, dizia, sem pestanejar, "azul turquesa". Era feliz quando nas suas pequeninas mãos tinha a caneta, exatamente com a cor do céu. Não se coibia de a utilizar em todos os seus desenhos, pintando o céu, e um sol, amarelo e radiante. "Lá em cima vão os teus avós" - Diziam-lhe, enquanto concentrava toda a sua atenção naquele avião, que parecia tão pequeno visto de longe, imaginando como seria estar lá dentro, a sobrevoar a terra que ela pisava. Entrava no aeroporto. Era capaz de ficar horas a olhar para a avioneta que, fantasticamente, se encontrava no tecto, suspensa por fios que lhe pareciam tão frágeis. Tinha medo de se colocar debaixo dela, mas era emocionante vê-la, e admirá-la. Subia ao rooftop do aeroporto. Colocavam-na em cima do muro para conseguir ver melhor. Sentia-se ain...

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