Eu escrevia-lhe palavras bonitas porque era tudo o que eu tinha no coração. Só o via a ele, mesmo que nele a minha imagem se passeasse ao lado de muitas outras. Ele dizia que nunca ninguém iria ocupar o meu lugar, enquanto segurava uma mão que não era a minha, e eu realmente não deixava ninguém sequer aproximar-se do seu lugar. Fiz do meu corpo um templo com o seu nome, e arranquei a alma para lhe dar. Tudo o que me restou foi vazio. Restaram as minhas cinzas a voar por cima do mar que ele olhava todos os dias. Encarcerei o meu corpo na corrente que balançava ao sabor do vento. Quis fugir mas todos os lugares me levavam até ele, não conhecia outra morada, não ousava pronunciar outro nome, estava impregnado em mim. Ele dizia que me amava mas que não podíamos ficar juntos. Usava a mesma saliva que usava para a beijar. "Sou um cabrão e menti-te durante meses". "Amo-te", era tudo o que eu ouvia.
Se não escrevesse enlouquecia, certamente. Embora nem escreva tanto como queria, umas vezes aqui, outras vezes em folhas soltas que se perdem com o tempo. O que importa é que se escreva. Importa deixar as palavras fluirem, abrir o coração, ir ao fundo do nosso ser e escrever, mesmo que nada faça sentido, e que tudo não passem de divagações sem nexo. Escrever é, sem dúvida, uma porta para o nosso mais profundo "eu". Escrevo aquilo que não digo cara-a-cara, escrevo o que quero desabafar para o nada, mas que tenho de o fazer de alguma forma e assim surgem as palavras, as frases, os textos...E como é bom deitar cá para fora aquilo que nos forra a alma, sentirmo-nos subitamente mais livres e aliviados, numa agradável sensação de liberdade, por simplesmente, ter escrito.

Comentários
Enviar um comentário
As tuas palavras também contam