Acordei e tive medo do tempo. Aliás, tive medo de tudo o que viria pela frente. Tive medo que o tempo te fizesse ver que a tua vida era melhor longe de mim, ou que havia por aí outras pessoas melhores que eu, ou que tivesses a certeza de que tinhas feito a melhor escolha. Acordei com a garganta seca, os olhos quase colados com restos de maquilhagem mal tirada, à mistura com água salgada que verti até adormecer. Agora, sabia que iria sentir o sufoco durante todo o dia, sabia que tinha desesperadamente de fazer algo. Sentia-me como uma criança que perde os pais num parque de diversões. O tique-taque do relógio não jogava a meu favor, e, neste momento, o tempo era o meu pior inimigo. Num impulso quis dizer tudo o que me ia nesse sítio a que chamam alma. Eu acho que já não a tenho. As palavras estão em cada poro do meu corpo, entaladas, à espera de um sopro de impulsividade. Mas tenho de me manter consciente, agarrada a uma réstia de sanidade. Hoje perguntaram-me o que significa a minha tatuagem. "Algo que já não tenho há muito tempo", respondi.
Era um dia de verão, no ar passava um avião, um de tantos que todos os dias sobrevoavam o céu, o mesmo céu que ela não se fartava de olhar. Quando lhe perguntavam qual a sua cor favorita, dizia, sem pestanejar, "azul turquesa". Era feliz quando nas suas pequeninas mãos tinha a caneta, exatamente com a cor do céu. Não se coibia de a utilizar em todos os seus desenhos, pintando o céu, e um sol, amarelo e radiante. "Lá em cima vão os teus avós" - Diziam-lhe, enquanto concentrava toda a sua atenção naquele avião, que parecia tão pequeno visto de longe, imaginando como seria estar lá dentro, a sobrevoar a terra que ela pisava. Entrava no aeroporto. Era capaz de ficar horas a olhar para a avioneta que, fantasticamente, se encontrava no tecto, suspensa por fios que lhe pareciam tão frágeis. Tinha medo de se colocar debaixo dela, mas era emocionante vê-la, e admirá-la. Subia ao rooftop do aeroporto. Colocavam-na em cima do muro para conseguir ver melhor. Sentia-se ain...

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