A fatídica página em branco. Aquela que eu tanto temia, arrumada a um canto por tempo incerto. Aterrorizava-me todos os dias da minha vida, os mesmos dias em que ao acordar lá estava ela, sempre no mesmo canto: inerte, incólume, e branca. Depressa desviava o olhar, numa mediocre tentativa de a ignorar e fingir que não existia. Afinal é isso que todos fazemos diariamente: fechar os olhos a uma realidade que, cobardemente, queremos ignorar. E ela por lá ia permanecendo, dia após dia, alheia à corrida incessante do relógio que urge impiedosamente. A página em branco que tu tanto teimas em guardar, naquela última gaveta, debaixo de inúmeras folhas de rascunho antigas e obsoletas que "um dia podem fazer falta". E a página em branco por lá vai ficando, na gaveta, no canto, na almofada que já desgastada carrega todo o peso de uma vida que não poupou o conformismo. A página, envolta em sonhos, desejos, futuros idealizados, porém, imaculada, desprovida de qualquer tentativa de uso, é a passadeira que corre e gira por baixo dos teus pés. Dá voltas e pisas sempre o mesmo sítio. A roda gigante que te faz ver o topo, mas que não te leva a parte alguma. A droga que te alucina e que te transpõe para outra dimensão. Mas tu continuas a ser tu, continuas a ser matéria em perigo eminente. Continuas a fazer parte de um conjunto de nadas, que juntos compõem a tua sufocante página em branco.
Era um dia de verão, no ar passava um avião, um de tantos que todos os dias sobrevoavam o céu, o mesmo céu que ela não se fartava de olhar. Quando lhe perguntavam qual a sua cor favorita, dizia, sem pestanejar, "azul turquesa". Era feliz quando nas suas pequeninas mãos tinha a caneta, exatamente com a cor do céu. Não se coibia de a utilizar em todos os seus desenhos, pintando o céu, e um sol, amarelo e radiante. "Lá em cima vão os teus avós" - Diziam-lhe, enquanto concentrava toda a sua atenção naquele avião, que parecia tão pequeno visto de longe, imaginando como seria estar lá dentro, a sobrevoar a terra que ela pisava. Entrava no aeroporto. Era capaz de ficar horas a olhar para a avioneta que, fantasticamente, se encontrava no tecto, suspensa por fios que lhe pareciam tão frágeis. Tinha medo de se colocar debaixo dela, mas era emocionante vê-la, e admirá-la. Subia ao rooftop do aeroporto. Colocavam-na em cima do muro para conseguir ver melhor. Sentia-se ain...

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