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Mensagens

Um desses dias

Abriu um olho, a medo - como quem espreita por cima da ombreira da porta - acabara de acordar, estranhamente cedo, e ainda mais estranho, não queria voltar a fechar os olhos. Era um daqueles dias que não tinha sabor a "mais um igual a tantos outros". Queria fazê-lo contar, senti-lo, aproveitar cada segundo que passava no relógio, sem chegar ao fim e sentir que nada de novo havia sido acrescentado. Não queria sentir a banalidade que os seus dias costumavam arrastar, não queria carregar a nuvem cinzenta que impedia que o ar nos seus pulmões fluísse normalmente. Queria correr, pular, soltar a voz, voar, sentir o ar frio a queimar o rosto num passeio ao final do dia no campo com os mosquitos a picarem-lhe a pele nua. Sabia que havia todo um mundo por desbravar, e isso era mais que motivo para que a monotonia se afastasse. Abriu os dois olhos e saltou da cama. Vestiu-se de alegria, calçou-se de entusiasmo. "Porque o mundo pertence a quem se atreve"

Sonhos de gente grande

Era um dia de verão, no ar passava um avião, um de tantos que todos os dias sobrevoavam o céu, o mesmo céu que ela não se fartava de olhar. Quando lhe perguntavam qual a sua cor favorita, dizia, sem pestanejar, "azul turquesa". Era feliz quando nas suas pequeninas mãos tinha a caneta, exatamente com a cor do céu. Não se coibia de a utilizar em todos os seus desenhos, pintando o céu, e um sol, amarelo e radiante. "Lá em cima vão os teus avós" - Diziam-lhe, enquanto concentrava toda a sua atenção naquele avião, que parecia tão pequeno visto de longe, imaginando como seria estar lá dentro, a sobrevoar a terra que ela pisava. Entrava no aeroporto. Era capaz de ficar horas a olhar para a avioneta que, fantasticamente, se encontrava no tecto, suspensa por fios que lhe pareciam tão frágeis. Tinha medo de se colocar debaixo dela, mas era emocionante vê-la, e admirá-la. Subia ao rooftop do aeroporto. Colocavam-na em cima do muro para conseguir ver melhor. Sentia-se ain...

Avó Maria

Naquele cantinho de "coisas que nunca vou esquecer", estão as palavras da minha bisavó Maria, sempre que a família vinha de férias para Portugal, “esta pode ser a última vez que vos vejo…”. Houve uma vez em que isso se cumpriu. Maria de Sousa Fernandes, era o seu nome. Este nome, expoentemente repetido, foi por mim escrito infinitas vezes, na tentativa de que ela também o conseguisse. Com os meus 6 anos, ansiava aprender a ler e escrever, primeiro, para poder devorar todos os livros de histórias que conseguisse, e segundo, para ensinar a avó Maria a escrever, pelo menos, o seu nome. Se eu aprendia, ela também ia aprender, dizia eu. Estávamos em patamares iguais, só que desfasadas no tempo. A avó Maria tinha sempre imensas histórias para me contar. Hoje vejo o quanto nos enriquecemos uma à outra. Ela com a sabedoria dos seus 80 e poucos anos, eu com o frescor e ingenuidade de quem tem toda uma vida pela frente. Era capaz de passar horas a pentear o seu cabelo branco, e a ...

"They say she couldn't, so she did"

Há muito tempo atrás - e aqui o tempo é subjetivo, mas entenda-se o tempo da minha existência - tinha os meus 9 ou 10 anos e andava num campo de férias. Eram umas quaisquer férias escolares e eu tinha decidido que queria passá-las em atividades com outras crianças. Lembro-me que na altura foi um desafio. Um começo. E eu sempre gostei de começos, aliás. Atirar-me de cabeça para um novo desafio, sozinha, sem conhecer nada nem ninguém. Simplesmente abraçar um desafio novo, e começar do zero. E sim, aqui estou " apenas a falar de um campo de féria s", mas para uma criança introvertida como eu era, foi um imenso desafio. Foi mais ou menos por volta dessa altura que senti - não pela primeira vez, mas de uma forma mais crua - a brutal chicotada que é o bullying. Esse parasita, silencioso, invisível, que se hospeda num rosto angelical e inocente. Comecei a senti-lo sem o saber. Não tinha consciência da ferida aberta. Era como cortar o dedo em papel, e só reparar algum tempo de...

Filha do vento

A solidão sempre foi a minha melhor amiga. Sempre me guiou, e sempre me disse o que fazer, em cada situação. Brinquei, chorei, sorri, fugi, corri, respirei o amanhecer e contemplei o pôr do sol, e éramos só nós. Acho que nunca precisei de ninguém, apenas dela. Foi a minha sombra, a minha bóia e o meu refúgio. Foi cúmplice de todas as aventuras, e guardou segredos que sempre assim permaneceram. Só nela pude confiar em pleno, só ela me conhece, de corpo e alma. Respeitou o meu silêncio, suportou os meus gritos, apaziguou os meus devaneios, e fá-lo há um quarto de século, tendo em troca o mais sagrado dos retornos: a lealdade.

Instantes que compõem nada

A fatídica página em branco. Aquela que eu tanto temia, arrumada a um canto por tempo incerto. Aterrorizava-me todos os dias da minha vida, os mesmos dias em que ao acordar lá estava ela, sempre no mesmo canto: inerte, incólume, e branca. Depressa desviava o olhar, numa mediocre tentativa de a ignorar e fingir que não existia. Afinal é isso que todos fazemos diariamente: fechar os olhos a uma realidade que, cobardemente, queremos ignorar. E ela por lá ia permanecendo, dia após dia, alheia à corrida incessante do relógio que urge impiedosamente. A página em branco que tu tanto teimas em guardar, naquela última gaveta, debaixo de inúmeras folhas de rascunho antigas e obsoletas que "um dia podem fazer falta". E a página em branco por lá vai ficando, na gaveta, no canto, na almofada que já desgastada carrega todo o peso de uma vida que não poupou o conformismo. A página, envolta em sonhos, desejos, futuros idealizados, porém, imaculada, desprovida de qualquer tentativa de uso,...

Damn

Não sei onde está a complicação, serei eu, será o meu coração, ou talvez seja apenas puro desaforo da minha cabeça. Gostava de me entender, mas infelizmente nunca fui boa em charadas e quebra-cabeças. Vôo por aí à procura de um porto seguro, porque de tanto me tentar encontrar, acabo por me perder. O tudo não me chega e o pouco é muito. Nesta imensidão de paradoxos, nem sei como ainda me mantenho lúcida. Dizem que quem espera sempre alcança, e eu lá vou acreditando nisso, também porque nesta altura do campeonato, as hipóteses de escolha já escasseiam, e a paciência sempre andou de mãos dadas comigo. E mesmo que tentar de novo seja sinónimo de sofrer de novo, eu não me importo, porque é assim a vida, cair sete vezes e levantar oito.